As coisas só se tornam reais quando publicadas em papel!

março 4th, 2011 by Caco Categories: News No Responses

PRINTCONGRESS 2010 “Tenho certeza de queo FAZ (Frankfurter Allgemeine Zeitung) ainda será publicado em papel por pelo menos 50 ou 60 anos”, disse Frank Schirrmacher em sua apresentação no PrintCongress 2010.

E essa opinião não seria nenhuma voz solitária, mas o coeditor do FAZ enxerga uma legítima e necessária reação à progressiva digitalização da sociedade, porque só o impresso teria a capacidade de “treinar” adequadamente o nosso cérebro.

Todos nós conhecemos a cena à exaustão:você está concentrado no seu trabalho e vai
avançando bem. Aí ouveum “ping” e seu computador informa que chegou correio. Você verifica o programa postal e lê a mensagem. Responde também “bem depressa”, quando se lembra de que queria verificar algo na internet.
Além disso, precisa ler o SMS que acabou de chegar. Até você voltar ao seu trabalho, lá se foram bem uns 20 minutos. E aí você encara a tela e pensa:
“O que diabos eu queria fazer agora mesmo?”

O fenômeno é um clássico caso de “sobrecarga de informação” e um exemplo marcante tanto quea mídia digital já domina nossa vida diária, e tambémdas consequências que este fato acarreta.

Frank Schirrmacher, coeditor do FAZ e autor delivros, destacou no PrintCongress 2010 claramente o que nos poderá sobrevir daqui para frente com a crescente digitalização– e constatou que o fim da “galáxia de Gutenberg” está longe
de ser alcançado.

HAPPY HOURS DIGITAIS. Até agora tudo se deu de forma diferente dos prognósticos, constata Schirrmachere invoca para isso o professor americano Cass R. Sunstein, de Harvard.

Sunstein era tido nos EUA como uma espécie de “guru digital”. Com seus escritos sobre a teoria de uma sociedade plenamente digitalizada, integradaem rede e sem papel, conseguiu tornar-se conselheiro de Barack Obama.

Em seuúltimo livro, Sunstein faz uma revisão de todas as suas teses. Assim, por exemplo, ele sempre defendera a opinião de quea integração em rede de muitas e diferentes pessoas em plataformas digitais geraria um conceito totalmente novo de verdade. Ocorreu o oposto: “Onde quer que seexamine algum blog, sempre se encontrarão grupos totalmente uniformes. Não existem opiniões atravessadas.”

A comparação com a happy hour é bem adequada: “Sempre se convida alguém afim e não se deseja a presença de perturbadores.” Segundo Schirrmacher, essa reconsideração, esse afastamento do admirável mundo novo digital que vem ocorrendo no momento nos EUA, não significa que o mundo digital desaparecerá – é claro que não.
Todavia ele prognostica que os impressos adquirirão uma função totalmente nova na sociedade.

SOBRECARGA DE INFORMAÇÃO.
O cenário do mundo digital segundo a descrição de Schirrmacher destrói ilusões e assusta. Se observarmos os efeitos que a leitura em equipamentos digitais provoca nas pessoas, constata-se que se trata de nada menos que uma revolução. De acordo com isso, Schirrmacher também lança mão de um exemplo da revolução industrial defins do século XIX. Naquela ocasião surgiu pela primeira vez um quadro mórbido chamado “fadiga”, também conhecido como exaustão ou burnout. Consta que esse quadro foi desencadeado simplesmente por dificuldades de adaptação das pessoas ao novo modo de trabalho com tecnologia mecânica. “Tratava-se de gente da lavoura que não conseguia trabalhar com máquinas muitas vezes altamente diferenciadas.”

Do ponto de vista atual, a solução parece até simplória: quem tiver problemas de adaptação,
precisa ser treinado adequadamente. Naquela época surgiu a educação física nas escolas, estabeleceu-se a “corrida de fundo” e a alimentação foi adaptadaàs novas atividades. Ou seja, procurou-se substituir algo que as máquinas tiravam do homem.

Segundo Frank Schirrmacher, “hoje, no século XXI, ocorre exatamente o mesmo – só que se refere a outros músculos”. E o “músculo” que as tecnologias digitais modificaram – e maciçamente – seria o cérebro. Este reagiria à leitura de telas de modo totalmente diferente à leitura do papel. A leitura da tela, em que na maioria das vezes há vários programas abertos, seria sempre uma tarefa múltipla.

O exemplo do dia a dia de escritório citado inicialmente expõe muito claramente o problema resultante disso.

Também a memória de curto prazo sofre em ambientes de constante distração. Segundo Schirrmacher, enquanto antigamente aindaconseguíamos manter simultaneamente sete conceitos na cabeça, hoje a média caiu para três.

Consta que empresas como a Microsoft já teriam criado nos EUA uma força-tarefa chamada“Information Overload” (sobrecarga de informação), que deverá ocupar-sedesse problema.“Precisamos partir da premissa de que o processo se intensificará cada vez mais”, prognostica.

Frank Schirrmacher analisa os efeitos da leitura na tela sobre o ser humano: “Não há no momento nenhum indício de que as tecnologias digitais exerceriam qualquer efeito de treinamento sobre o cérebro.”

’’ Nos blogs encontram-se sempre grupos uniformes, em que não existem opiniões atravessadas.

Schirrmacher. Atualmente não existiria nenhum indício de queas tecnologias digitais exerçam qualquer efeito de treinamento sobre o cérebro. Pelo contrário: “O cérebrode umapessoa modifica-se num prazo de duas semanas depois de ter tido o primeiro contato com computadores”, alerta ele.

LIVROS POR PRESCRIÇÃO?

Schirrmacherenxergano seguinte um motivo para as alterações que a leitura em mídia digital acarreta: nossocérebro contém o que se chama de neurônios retardadores, que se encarregam defiltraras informações quedesabam sobre nós, habilitando-nos a estabelecer prioridades. Dito emtermos grosseiros, protegem-nos depirar.  Sem eles, diz Schirrmacher, viveríamos uma simultaneidadetotal.Na internet, porém, esses neurônios retardadores seriam praticamente paralisados ouaté queimados. Este seria o motivo pelo qual não conseguimos lembrar praticamente nada ao términodaleitura online deum artigo, junto com talvez ainda vinte a trinta comentários.

Segundo o relatório deleitura do ministério da educação americano, já existe um significativonúmero de pessoas quenem sequer mais têm condições de entender um texto integral. E nãose trata, por exemplo, de Proust, mas de rotulagensou algo similar. Já na leitura em papelesses efeitos não ocorreriam.

A conclusão de Schirrmacher e, ao que tudo indica, também da moderna pesquisa sociológica,é: tal como na virada do século se começou a treinar as pessoas para um novo ambiente detrabalho e de vida, necessita-se hoje de um treinamento– para o cérebro: o prognóstico de Schirrmacher é que, “na sociedade digitalizada,a leitura em papel não será apenas um processode comunicação, mas um processo terapêutico”.

Desta forma, a leitura em papel teria um comprovado efeito de treinamento sobre os neurônios retardadores. Poderá chegar a haver aulas compulsórias de leitura em papel, porque“as coisas só se tornam reais quando são publicadas em papel.”

IMPRESSO: UM ASSUNTO PARTICULAR.

Este não seria o único efeito positivo da informação impressa que Schirrmacher destaca. Ainda impressionado com o que viu em suaviagem aos EUA e com as conversas, inclusive com Eric Schmidt, o chefe do Google, ele observa: “Quando quer que alguém se mova pela rede, a cada segundo é observado, triado e analisado. Percebe- se isso ao receber de repente propaganda sabe-se lá de onde. Percebe-se também aoser encaminhado sempre a mais alguma outra coisa e pelo fato de precisar tornar-secadavez mais transparente para extrair resultados da rede.” Exatamente isto serião grande modelo de negócio do Google.

Esse processo estaria passando por umavisível intensificação. Todas as informações que transmitimos consciente ouinconscientemente pela rede – e não se trata apenas da internet, mas também do celular, seriam entrelaçadas, arquivadas e usadas para montar um detalhado perfil. Segundo Schirrmacher, nãodemora até as pessoas perceberem isso como realidade. Percebem-no na entrevista com o gerente de pessoal, quando naturalmente recebem sobre amesa suas contas do Facebook. Notam também que a esta altura as pessoas são analisadas porcomputadores – seja na consulta médica ou onde for.

Assim, Schirrmachercita Eric Schmidt: “Nossa ideia é transformar todaa comunicação do mundo em textos, para a partir deles criar modelos que tornem previsível o comportamento humano. Se você hoje à noite pretender ir a um concerto, saberemos prever para você se ele será bom ouruim– tudo combase em comunicação digital em tempo real.”

Outro exemplo poderia ser a política de pessoal da IBM: segundo consta, ali os empregados já passaram por uma análise taxonômica tal que a empresa possui modelos decada empregado que permitem conclusões sobre o seu comportamento: “O funcionário X é comparável ao funcionário YZ – e assim ele será daqui a 20 anos.” Aqui,a rede há muito já não seria mais percebida como meio de comunicação. Seria antes algo que deverá moldar, analisar e motivar o homem em sua realidadede de vida.

Diante desse pano de fundo – “e aí também vejo uma tarefa para o impresso” – o papel seria a única ilha de comunicação não vigiada na sociedadedo futuro. “Quanto mais esses sistemas se desenvolverem, tanto mais isto setornará um fator de sobrevivência extremamente importante para os impressos.” No entanto, de modo nenhum seria o único: segundo Frank Schirrmacher, em um mundo cada vez mais digital o impresso é algo que confere valor às coisas e que representa algo que merece ser preservado.

Já haveria evidências de um movimento contrário à progressiva digitalização com todas as suas facetas. O desejo de estar offline, de dispor de uma área privada e indevassável, estaria cada vez mais forte. Nos Estados Unidos, esse movimento contrário partiria
até das crianças e jovens, considerados particularmente afins à digitalização, que já estão se rebelando com a atenção queo novo “irmãozinho” chamado iPhone ouBlackberry requer
dos seus pais.
Ainda assim, o prognóstico final de Frank Schirrmacher depois de todos esses cenários de dar
medo é alentador: “Estou convicto de que após uma fase de total exagero haverá umacoexistência entre os meios impressos e online.” Seu apelo ao público é: “Não caia na conversa de que eles seriam os revolucionários e você o passado.
Tudo indica que o futuro estará em outro lugar.” Eis o recado.

Perfil pessoal Frank Schirrmacher é jornalista, cientista literário e ensaísta alemão, autor delivros e, desde 1994, coeditor do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ).
Suas obras mais conhecidas são o livro Das Methusalem-Komplott“ (O complô Matusalém), publicado em 2004, e o livro de 2009 intitulado Payback.  Por que na era da informação somos forçados a fazer o que não queremos e como reconquistar o controle sobre o nosso pensamento). Neste último, Schirrmacher discute – tal como em sua palestra – a influência
dos modernos meios de informação sobre o homem. Schirrmacher comenta os perigos da rede:“  Onde quer que você se mova pela rede, a cada segundo você é observado,
triado e analisado. ’’ O impresso é a única ilha de comunicação não monitorada na
sociedade do futuro”.

Fonte: Revista PrintComBrasil edição 78.